Sobre o fetiche da generalização em pesquisas

A massificação do acesso à internet, o mega povoamento das redes sociais e as eleições ocorrendo nesse contexto, tem expandido o acesso a pesquisas, em geral de opinião, para um grande número de pessoas, criando, inclusive, uma espécie de consumo desse material, que apenas visitavam, via televisão em tempos de eleição presidencial, o conjunto da massa trabalhadora.

Esta afirmação, faço a título de hipótese, a partir de uma leitura pessoal do que vem ocorrendo e também da vivência na academia e na política, seja partidária ou sindical, e tem como objetivo apresentar uma reflexão a queima roupa, provocada pela repercussão nas redes de pesquisas recentemente divulgadas, mas não se trata de uma análise de pesquisas em si, mas de uma reflexão sobre a prática de generalizar os resultados de pesquisas, sobretudo a partir da mídia, estabelecendo relações de causais controversas.

Por óbvio, esse texto tem muitos limites e seu objetivo é lançar um fio, ou melhor, uma ponta, para quem sabe, construir uma linha de pensamento sobre a questão. Também é importante advertir que não desconsidero essas pesquisas como forma de evidenciar tendências ou fenômenos sociais, a questão aqui é o uso superficial e distorcido e as inferências fatalísticas a partir delas.

As pesquisas, sejam qualitativas ou quantitativas, têm sido usadas com um certo grau de sucesso na política e isso é óbvio, pois se não tivessem sucesso não seriam usadas. Muito comuns no campo da publicidade [pesquisa de mercado], elas são comumente usadas para direcionar o marketing e também as estratégias de venda de produtos e ganham força na política como forma de apreender a “opinião pública”, a visão e percepção do eleitor sobre determinado tema e melhor direcionar as decisões políticas. Porém essa causa nobre, de auscultar a “opinião pública”, não parece ser o que ocorre na realidade, pois essas pesquisas são majoritariamente usadas para fins eleitorais, com vistas na formação de discursos [eleitorais] e narrativas, além da projeção de candidatos.

A primeira crítica que devemos evidenciar é à premissa de que por si uma “pesquisa feita por instituto de pesquisa é necessariamente identificada com Ciência e por isso produz conhecimento verdadeiro e generalizável. Na maioria das vezes, as notícias e a legitimidade de suas fontes, são fiadas por institutos de pesquisa e consultorias, que não passam de produtores de discursos e argumentos em favor de teses políticas.

A segunda crítica diz respeito à questão metodológica, pois se falam apenas dos resultados, obtidos em amostras ou muito pequenas, quando são pesquisas qualitativas, ou não probabilísticas, quando pesquisas quantitativas. Pouco ou nada se fala da metodologia de coleta e análise dos dados coletados, pois a premissa objeto da primeira crítica dá conta de “resolver esse problema”.

Quase a totalidade dessas pesquisas são feitas por meio de amostras não probabilísticas, ou seja, não podem subsidiar inferência estatística, o que quer dizer que suas conclusões não podem ser generalizadas para o conjunto da população da amostra, elas apenas indicam um momento ou, no máximo, uma tendência. Outros elementos da coleta de dados são importantes, mesmo que não seja probabilística, a amostra deve ser minimamente representativa da população e sua coleta não deve ser concentrada em locais que possam “fornecer” apenas uma visão do que se busca pesquisar, por exemplo, aplicar questionários no comitê de um partido. Em relação a pesquisas qualitativas, elas nunca objetivam a inferência estatística ou a generalização, elas fornecem dados informações exclusivamente sobre seu universo, podendo, no máximo, subsidiar a formação de hipóteses que precisam ser confrontadas.

Vejam como é complexa essa arena e tal complexidade nunca poderá ser apreendida por veículos de comunicação da mídia corporativa, que tratam a informação como mercadoria, pulverizando os resultados de uma pesquisa séria com um conjunto de manchetes simplistas, que tem como único propósito a conformação da opinião pública a partir de critérios de legitimidade como a neutralidade da imprensa e a cientificidade de um “instituto de pesquisa”. Pesquisas e pesquisadores sérios não fazem afirmações absolutas sobre os resultados que obtém, pois tem consciência das limitações metodológicas e da complexidade do objeto nas pesquisas sociais.

Na atual conjuntura da “sociedade da informação” tendo a concordar com a hipótese de que, as pesquisas que tem a mídia como principal meio de divulgação tem objetivo real de servir como instrumento de marketing, produtoras de narrativas a favor de uma tese e não como instrumento de debate ou subsídio para produção de conhecimento ou de políticas.

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