A profundidade exige cuidados…

Outro dia falei aqui sobre vivermos em uma era de superficialidades, momento histórico em que prevalece o fugaz, passageiro e raso. De dato, as pessoas, em geral, estão tomadas pelo sentimento pós-moderno e negam, em nome da superfície, a profundidade, tão característica à modernidade. Porém, acontecimentos do dia-a-dia demonstram que a profundidade exige cuidados, tanto no caminho de ida, quanto no caminho de volta, aliás, mais ainda no caminho de volta.

Não precisa de muito não, quem já assistiu filmes de mergulhador ou algum programa de canais de documentários de TV à cabo ou mesmo lembra um pouco das aulas de física do colégio, sabe que quanto mais fundo se vai, no mar ou no rio, maior é a pressão e essa pressão é perigosíssima, pois pode esmagar os órgãos do corpo e provocar, obviamente, a morte do mergulhador, ou mergulhadora.

Por isso, pra se atingir altas profundidades é necessário mais que um bom fôlego. É necessário treinamento, equipamento e apoios específicos, além de um processo que vai ajudar, dentre outras coisas, o corpo a se acostumar. Depois, quando já se mergulha e se explora com destreza o profundo, pra voltar à superfície é preciso despressurizar, de forma gradual e controlada, para evitar doenças que podem ser muito graves. Não se pode mergulhar “duma vez” e nem voltar do fundo “duma vez”.

Do mesmo modo penso que deve-se ter todos os cuidados quando se escolhe sair da superficialidade e mergulhar em águas profundas quando o assunto é conhecimento, reflexão sobre a realidade e compromissos. Se rodear de mergulhadores experientes, equipamento correto e estar disposto ao duro processo são pré-requisitos para o caminho de ida não se frustrar e turvar a visão do fundo. A volta exige mais cuidado, pois pode prejudicar mergulhos posteriores, além de debilitar o mergulhador em sua relação na superfície com doenças restritivas, ou até matar.

A profundidade é reveladora, mas exige seus cuidados! Um deles é assumir que no fundo do mar, ou do rio, por mais profundo que se esteja ainda há uma imensidão fora do alcance da vista e que, pra conhecer toda essa imensidão através de outros mergulhos, é preciso voltar, de modo gradual e controlado, à superfície, sempre certo também que essa superfície, embora seja apenas superfície, também é parte da mesma realidade que o profundo.

Falido um modelo, outro emergirá em seu lugar, mas pelas mãos de quem?

Na sexta feira passada, 05 de dezembro, a Polícia Federal informou quem em seu relatório final, da operação ave de rapina, iria indiciar entre 11 e 14 vereadores da capital catarinense. Indiciou 14 (PDT, PSC, PMDB, PSD, PSB), de uma câmara que contém 21 parlamentares. Os vereadores são acusados de votarem em emendas a um projeto de lei em favor de empresas de comunicação visual da cidade.

Nessa mesma sexta-feira o Prefeito de Lages (PMDB) se apresentou à polícia civil estadual por ter sua prisão preventiva decretada em outra operação, também ligada a propinas, dessa vez em fraudes nas licitações.

Se fizer um pequeno esforço de memória, é possível lembrar de mais três escândalos envolvendo corrupção, propina, favorecimento e tráfico de influência. Um foi o caso de servidores do IMETRO SC e outro uma operação chamada fundo do poço, que retirou o Deputado Titon (PMDB) da Presidência da ALESC. Também houve apreensão de dinheiro com dois servidores da guarda municipal de Florianópolis que estavam comissionados na prefeitura. Esses casos foram recentes, não tem 6 meses, e com certeza uma “googlada” mais acurada e atenta vai trazer outras e mais detalhes.

Todos esses eventos, é claro, não tiveram a mesma cobertura que os escândalos da Petrobrás, sobretudo nas notícias e análises seletivas, que falam do PT. Há uma nítida ação da mídia para canalizar todo ônus dessa onda de denúncias e prisões para o PT, reforçando no imaginário popular, na opinião pública, a tese de que a corrupção começou agora. Mas não começou. O governador Colombo e o Prefeito de Floripa ficam ilesos, mesmo tendo importantes quadros de seu partido à frente dos esquemas como é o caso do Vereador Badeko (PSD) , que está preso e Cesar Fárias (PSD), duplamente indiciado na operação ave de rapina.

A corrupção é estrutural a esse sistema político e leitoral. Vejam se há algum PTista envolvido nos escândalos de SC. Não há! Pois o PT está fora do centro do poder em SC. Os envolvidos são todos ligados ao fisiologismo que vem mantendo uma alternância fictícia de governo entre as oligarquias e a direita liberal. Mas colando esses escândalos à Petrobrás com uma cobertura de mídia enviesada, tentam criar uma onda e usá-la como força motriz de um golpe, ou no mínimo, como forma de impedir as mudanças necessárias.

A cada dia que passa, é preciso olhar com olhos de ver e ouvir com ouvidos de ouvir, pois tudo que vem ocorrendo são indícios de que esse modelo de organização política do Estado brasileiro está falido e mudanças virão, é inevitável, porém cabe agora “decidir”: Quem vai hegemonizar essa mudanças, se a população organizada, a sociedade civil progressista e democrática em conjunto com os movimentos sociais, ou os políticos corruptos e empresários corruptores?

O papel de todos é muito importante, dos intelectuais progressistas, dos movimentos culturais, do militantes consciências ou pessoas comuns que não aguentam mais essa situação, que junto com as diversas organizações do povo, deverão fazer o debate de ideias para garantir que o novo surja à partir de preceitos democráticos, participativos e solidários, e não à partir de preconceito, ódio e segregação. Essa disputa já está em curso e se dá em todos os âmbitos de nossas relações, seja na mesa de jantar com a família, seja no bar ou no plenário do parlamento e para garantir vitórias, vamos precisar de todos e todas.

O tempo… ah, o tempo…

“O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor; embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; sem medida que o conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim; é um pomo exótico que não pode ser repartido, podendo entretanto prover igualmente a todo mundo; onipresente, o tempo está em tudo;

[…]

rico não é o homem que coleciona e se pesa no amontoado de moedas, e nem aquele, devasso, que se estende, mãos e braços, em terras largas; rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é;

[…]

pois só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas […]”

Este excerto da novela Lavoura Arcaica (1975), de Raduan Nassar, é o relato de um dos sermões costumeiros do patriarca daquela família e mesmo passando uma mensagem de contemplação, resignação e recato, contra a qual um dos irmãos se rebela, é também, pra mim, um dos trechos mais profundos de tudo que eu já li. Sempre lembro, reflito e retorno à leitura desse trecho, em diversos momentos e situações.

Em mim, esse sermão não provoca a resignação e contemplação que o pai solicita à sua família, ele remete, justamente, à busca da quantidade de vagar e espera que o tempo nos exige, de modo a fazer o melhor no melhor momento.

A fé não costuma faiá

A crença em algo imaterial capaz de intervir na vida dos homens, em seres superiores, deuses e Deus faz parte da história da humanidade. Também faz parte dessa história a busca de compreensão da realidade e, à medida em que a racionalidade humana evolui, as explicações fantásticas e míticas para os eventos naturais, por exemplo, dão lugar a explicações racionais e científicas, distanciando a verdade do misticismo e quebrando as legitimidades baseadas nas crenças.

Mesmo assim, ainda hoje, com as tecnologias e a ciência se desenvolvendo a passos gigantes, a crença, a fé e as religiões, de qualquer matiz, continuam a fazer parte da vida humana em qualquer parte do planeta. Alguns atribuem esse fato à ignorância, a baixos graus de civilidade, a processos de dominação ideológica. Sim, eu diria que todas essas causas existem, mas penso que elas influenciam mais na forma de se crer e não invalidam a essência da crença e da fé que, fazendo parte da essência do ser humano, o aproxima disso intuitivamente, e então, a partir de sua condição material, histórica e social, desenvolvimento intelectual e interesses se organiza nesse ou naquele sistema religioso, ou mesmo em sistemas não religiosos.

A crença ou a assunção de uma metanarrativa, de um “projeto maior”, que dê sentido à nossa pequenez individual diante da natureza, da história, do universo, do cosmos, penso, é parte da nossa essência humana, e é justamente a negação disso que nos desumaniza e produz a sociedade atual, pós-moderna. Sem sua essência o que é o homem ou a mulher? Mas o que é essa essência? É aquilo que te impede de ser nada! É aquilo que te dá sentido, ao mesmo tempo que dá sentido ao outro e aos outros, em si e em conjunto, ao mesmo tempo!

A fé é justamente a motivação, a certeza e o desejo, em constante tensão e triangulação entre si, que permite transformar todo idealismo presente em nossa essência em realidade, pra si, pro outro e para os outros, em si, em conjunto, ao mesmo tempo! Sem esse elemento da transformação individual e coletiva a fé não terá efeito concreto e servirá apenas para o alívio de uma consciência individual. A verdadeira fé é aquela que pede, mas ao mesmo tempo constrói condições, quer, mas faz acontecer, e tendo olhos de ver e ouvidos de ouvir, encontra o que precisar.

Essa não costuma faiá.

Cara e/ou Coroa

Sabe aquela velha história de dois lados da mesma moeda?
Pois então. É bem assim que acontece.
Ela é uma só, é cara e é coroa.
Mas não é cara e coroa, simplesmente.
É cara! E é coroa!
Como a moeda não fica parada de pé, só deitada,
uma vez lançada, faz-se então a presepada,
pois quando sobre o solo ela deitar
somente um lado exposto vai ficar.
Será cara ou coroa?

pelo poeta residente, L. E. Vazper

Dia de… Consciência Negra.

ÍndiceHoje é dia 20 de novembro, dia da Consciência Negra, momento em que se lembra da morte de Zumbi dos Palmares, líder negro dos quilombos que morreu lutando pela libertação dos escravos, símbolo da luta contra o racismo, numa perspectiva de protagonismo. Hoje é o dia de celebrar a luta pelo fim da escravidão e não 13 de maio. É muito comum que as pessoas fiquem presas somente no fim das coisas, nos resultados, ainda mais nesse mundo just in time.

Aliás, se for pensar em termos de resultado, não temos nada que celebrar, pois o racismo no Brasil continua da forma mais perversa, escamoteada, velada, dentro do armário feito um bixo-papão que sai de noite e aproveita o facebook aberto pra propagandear ódio e intolerância enquanto se dorme. A entrevista da revista fórum, publicada em 2012, com o antropólogo zairense Kabengele Munanga, com o título “Nosso racismo é um crime perfeito” é bastante elucidativa sobre mito da democracia racial brasileira.

Mas esse racismo pessoal, do bixo-papão cibernético, de foro íntimo, não é o pior (se é que dá pra hierarquizar o racismo… dá?)… O racismo institucional, sistêmico, mata e aleja em escala… O jovens negros são os que mais morrem vítimas de arma de fogo, são a maioria da população carcerária Brasileira… o que mais é preciso dizer? Alguém ainda acha que não há racismo aqui e que o racismo no Brasil não mata? Sim, acham que não há racismo e desconsideram os dados que o artigo A violência contra jovens negros no Brasil trabalha, mostrando bem com as coisas funcionam.

Penso que é preciso considerar o racismo no contexto da luta de classes, assim como o feminismo e a luta anti-homofobia, pois senão, cairemos no fetichismo das políticas setoriais, que não mudará de fato essa situação. Enquanto houver capitalismo, haverá todo o tipo de opressão e exploração da classe trabalhadora, dos que não tem nada além da sua força de trabalho pra garantir a sobrevivência. O capitalismo tem a exclusão, a desigualdade, o orgulho e o egoísmo na sua essência e por isso, sua classe dominante, para manter essa desigualdade intrínseca, se utiliza de todos os instrumentos de opressão, sejam ideológicos ou repressivos.

Celebrar o dia 20 de novembro é celebrar a travessia que está em curso, sempre, pois como bem disse um dos mais Mineiros dos Brasileiros que já viveram, que com certeza aprendeu a nadar em rio… “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia” (João Guimarães Rosa)