Infância: o nascimento e o aparecimento de uma novidade
Por Maira dos Reis*
Pensar a infância é partir de um processo de desconstrução sobre o que aprendemos sobre ela. Jorge Larrosa ao falar sobre “O enigma da infância” cita que: “…a presença enigmática da infância é algo radical e irredutivelmente outro, ter-se-á de pensá-la na medida em que sempre nos escapa: na medida em que inquieta o que sabemos (e inquieta a soberba da nossa vontade de saber), na medida em que suspende o que podemos ( e a arrogância da nossa vontade de poder) e na medida em que coloca em questão os lugares que construímos para ela ( e a presunção da nossa vontade de abarcá-la).
Ao longo da história nos deparamos com moldes prontos sobre a infância. Como tratá-las, como vesti-las, o que se espera delas em cada etapa, como se todas fossem iguais. Muitas vezes esperamos delas comportamentos e responsabilidades que não as pertencem. Tiramos a oportunidade de viver essa infância como criança.
Decorrente desta realidade há crianças desmotivadas a aprender, pois não encontram significado nesta aprendizagem que muitas vezes é ministrada de forma homogenia, deixando de considerar a especificidade de cada uma delas.
Compreendemos que para haver aprendizagem tem que haver desejo de aprender, mas muitas vezes ensinamos a nossas crianças algo muito longe do que é real para elas, e isso as leva ao rápido esquecimento.
À medida que pensamos a infância como algo novo, um verdadeiro início, descaracterizamos essa criança adultizada, e passamos a ver nela um processo de descontinuidade, que cada uma tem a oferecer uma novidade. O nascimento e o aparecimento desta novidade interrompem com todas as expectativas e faz delas um ser único que têm muito a acrescentar, pois a cada nascimento é revelado algo novo para aprender.
É preciso entender que há palavra na infância, tratá-las como se fossem seres que ainda não são, porque não falam, não possuem razão nem linguagem, nos restringe a ver a infância como algo que simplesmente nasce para dar continuidade aquilo que já projetamos a ela sendo meros repetidores de histórias já conhecidas.
Neste contexto, as instituições de ensino têm um papel fundamental. A infância passa a ser explicada oferecendo aos educadores a capacidade de intervir, mudando assim o ambiente que acolhemos essas crianças.
Assim como Sócrates, precisamos defender que há palavra na infância; “essa fala não aceita deixar de ser fala, que mesmo não sendo ouvida, ela insiste em ser pronunciada”, partindo disto podemos entender esse processo de descontinuidade e tudo que ela tem a nos ensinar como educadores.
Mesmo sabendo tanto sobre a infância, ainda podemos dizer que há muito a descobrir. O que sabemos se dá como meta, como tarefa e como itinerário pré-fixado; pois crianças têm sede de coisas novas, de alegrias desconhecidas, de sensações jamais vividas e são elas que podem colocar em risco essa Sociedade Moderna.
*Professora e Coordenadora de Creche da rede pública municipal de Itajubá. Faz especialização em Educação Infantil no Instituto Federal do Sul de Minas.





Últimos comentários