*Por Lucas Cassab
Como prometido, o assunto é participação popular e os desafios para o nosso governo. Esse assunto será recorrente.
Com o objetivo de contextualizar, é preciso fazer um breve histórico. Curto, cheio de lacunas e generalidades, que não pretende tratar das particularidades de cada movimento, até porque seria necessário escrever um livro de milhões de páginas para isso.
Ao contrário do que muitos pensam o povo brasileiro sempre tentou participar da vida política do país. Existem estudos até sobre a influência da classe trabalhadora na Constituição de 1824. Mas essa participação sempre foi negada, seja pelo meio da força, seja pela cooptação, manipulação, e esvaziamento dos fóruns onde havia expressão popular.
Até o Golpe de 64, o movimento de esquerda caminhava numa grande crescente, cada vez mais forte, e mais presente na vida das pessoas. Com o Golpe, o movimento sofreu uma brutal destruição física, mas não se esquivou de fazer a crítica, tanto com a luta armada, quanto com a denúncia das falsas eleições MDB X Arena, ou até participando dessas eleições, pelo MDB.
Mas com o enfraquecimento do stalinismo, do bloco soviético, a leitura de novos autores, o fortalecimento e vitória parcial da hegemonia capitalista, os movimentos de esquerda abandonam a idéia de que a revolução acontecerá no dia seguinte e começam a lutar por melhorias dentro do Estado. E não apenas denunciando, como sempre estiveram acostumados a fazer.
Isso cria uma enorme confusão entre todos os lutadores sociais: como sair de uma denúncia para ter que construir uma sociedade que teoricamente você não acredita? Uma sociedade onde existe diferença de classes? Como afirma Michail Bulgakov: “é natural que não se chegue, quando não se sabe para onde está indo!”
Alguns setores não encaram o desafio e continuam a praticar denúncias cegas e irresponsáveis. Mas a grande maioria dos lutadores enfrenta esse desafio, que na prática, fomos nós próprios que conquistamos: o direito a eleger e ser eleito, de governar e ser governado.
Para tentar governar e continuar construindo outro tipo de sociedade, além de inverter algumas prioridades, fortalecer o estado, distribuir o máximo de renda que conseguimos nos limites do capital, tentamos estabelecer governos democráticos e populares. Tentamos criar as mais variadas formas de participação popular com os conselhos, o orçamento participativo, o congresso da cidade, os fóruns de mais variados tipos, orçamento participativo digital e outros mecanismos nos municípios e estados que governamos.
Mas em âmbito federal, não conseguimos dar um salto de qualidade que muitos gostariam de ver. Apesar de conseguirmos mostrar ao povo brasileiro a importância do Estado, como gerador de renda, responsável por projetos, indutor do desenvolvimento, um estado que retorna aos cidadãos, serviços, que atua nas disparidades regionais, não conseguimos fazer com que o povo tome para si a tarefa de governar sua própria vida, em comunidade.
Continuamos reféns de um congresso extremamente pragmático. Nossas conferências foram fracas no sentido de organizar novos atores sociais, elas foram feitas por atores já organizados da sociedade, não se desenvolveu formas de organizar novos atores, ate porque, as etapas municipais ficavam a cargo de cada município, e não conseguimos avançar sobre a elaboração de uma nova forma de orçamento, um orçamento mais participativo.
Acho que esses são os grandes desafios da Dilma, fortalecer o estado participativo, para juntos construirmos uma nova sociedade, baseada no fortalecimento das decisões populares, e definições de rumos e metas pelo povo.
* Bancário, Sindicalista dirigente da CUT Regional de Juiz de Fora
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